OPINANDO – Enterrem meu coração na curva do rio – Dee Brown

 

 

Título original: Bury my heart at wounded knee

Autor: Dee Brown

Editora: L&PM POCKET

Tradução: Geraldo Galvão Ferraz e Lola Xavier

Ano: 1970

Minha edição: 2003

456 páginas incluindo notas e referências bibliográficas.

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Edição de 2003.

Este livro foi o mais terrível que li na vida e não imagino que algum outro vá ocupar seu lugar tão facilmente.

Dee Brown, através de extensas pesquisas feitas enquanto trabalhava como bibliotecário no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e também na Universidade de Illinois, escreveu este livro magnífico e atormentador e o publicou em 1970. Trata-se da história da colonização dos territórios norte-americanos a partir da seleção de documentos e depoimentos que direta ou indiretamente trazem o ponto de vista do próprio povo indígena.

Enterrem meu coração na curva do rio apresenta a dizimação sistemática das nações indígenas pelo governo norte-americano, as quebras de promessas feitas aos índios, a apropriação indevida de seus territórios e campos de caça, o extermínio dos búfalos, sua principal fonte de alimento e o inevitável aprisionamento em reservas localizadas em territórios que os brancos não queriam por serem extremamente ruins para se viver.

Lendo este livro entrei em contato com figuras que tem estado no meu imaginário há muito tempo. Desde a infância, lendo as histórias em quadrinhos do Tex (criação de Gian Luigi Bonnelli, conhecido western spaghetti), me acostumei a ler sobre o oglala Nuvem Vermelha (em Tex, ele é Navajo e sogro do personagem título), os chefes apaches Cochise e Mangas Coloradas, Gerônimo, Victorio, Cachorro Louco, Touro Sentado… sempre me vi torcendo pelos índios, sempre assisti aos filmes western achando que tudo aquilo parecia estranhamente errado. Não precisei ler este livro ou fazer História para descobrir que algo realmente estava errado (apesar de ter feito tanto um quanto outro), mas lê-lo foi uma experiência impactante que me deixou fraca, uma fraqueza quase física.

A voracidade, a falta de alteridade, de respeito, a cegueira dos brancos em relação aos povos indígenas foi/é tamanha que incomoda, que te muda a partir do momento em que você lê seus testemunhos. Quando você lê os discursos infindáveis dos chefes índios, de sua busca pela paz com os brancos – e mesmo os ditos mais belicosos como Cochise, Touro Sentado, ou Victorio procuraram se fazer entender pelos usurpadores -, tentaram demonstrar que aquelas terras lhes pertenciam e que estavam dispostos a compartilhá-la. A má interpretação de suas palavras levou à guerra, levou à luta desigual entre armas de fogo e arcos e flechas e em pouquíssimo tempo, à extinção de um povo. Os relatos das perseguições se iniciam na década de 1840 e os últimos povos a serem fechados em reservas data de 1890, com raras exceções para aqueles que abandonaram seu estilo de vida e “adotaram” o do homem branco. Exceção que cobre também aqueles que se entregaram ao uísque de má qualidade para fugir da depressão, para esquecer o tédio de uma vida que deixou de fazer sentido.

Imagino que o que mais choca em um relato como este é ver como os índios não tiveram nenhuma chance. Não tiveram nenhuma possibilidade de auto-defesa que fosse minimamente equilibrada. Mesmo quando os pelotões de cavalaria só podiam contar com rifles de um tiro só, os índios tinham que se virar com arcos e flechas, as leis que funcionavam apenas de um lado só, o fato de eles não serem considerados “pessoas”…

“O mundo segue adiante”, como diz o Mestre Stephen King em sua saga Torre Negra, e infelizmente alguns não conseguem acompanhar esta marcha inexorável do tempo, a alguns não é dado nenhuma chance.

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O título do livro (segundo a Wikipedia) é uma alusão a um poema do século XX chamado American Names de Stephen Vincent e traz o seguinte trecho: I shall not be there/I shall rise and pass/Bury my heart at Wounded Knee. É também uma referência a um espaço geográfico onde foi enterrado o chefe oglala Cavalo Doido, às margens de um riacho chamado Wounded Knee.

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Quando eu era jovem, andava por todo este território, pelo leste e oeste, e nunca vi outro povo além dos apaches. Depois de muitos verões, andei novamente por ele e encontrei outra raça de pessoas, que viera para tomá-lo. Como é isso? É por isso que os apaches esperam morrer – e não dão mais importância para suas vidas? Percorrem as montanhas e as planícies e querem que o céu desabe sobre eles. Os apaches eram outrora uma grande nação; agora são poucos e por isso querem morrer e não se importam mais com suas vidas. [Cochise, dos apaches Chiricauhuas]

 

Os brancos só contaram um lado. Contaram o que lhes agradava. Contaram muita coisa que não é verdade. Só as melhores ações deles, só as piores ações dos índios, foi o que o homem branco contou. [Lobo Amarelo, dos Néz Percés]

 

OPINANDO – A Revolta de Atlas – Ayn Rand

 

Quem é John Galt?

Eu vou parar o motor do mundo

TÍTULO ORIGINAL: Atlas Shrugged

Autora: Ayn Rand

Ano de Lançamento: 1957

Minha edição: 2010

Editora: Arqueiro

Número de páginas: Aprox. 1300

 

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A Revolta de Atlas é o primeiro item do desafio GoodReads. O livro que eu gostaria de ter lido em 2015. Comprei a trilogia em dezembro de 2012 e fui ler apenas ano passado. Minha edição é aquela reedição de 2010 e que veio em um box dividido em três volumes.

Minha história com Ayn Rand começou de forma bem simples e inocente. Vi a trilogia no Submarino pelo preço de 17,00 reais e alguns centavos, gostei do título, gostei da capa, amei o fato de serem três livros pelo preço de um. Não li a sinopse e coloquei no carrinho. Neste ponto eu devo confessar que tenho uma ligeira compulsão por comprar livros baratos.

Eles chegaram e se instalaram na minha estante por quase três anos completos. Em novembro de 2015 eu decidi que não começaria 2016 com Ayn Rand me intimando a lê-la. Pois bem. Li todos eles, mas fui terminar o terceiro volume na segunda semana de 2016.

 

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A TRAMA

A Revolta de Atlas é uma distopia que se passa nos Estados Unidos em uma época não especificada onde o capitalismo está em colapso e o poder do estado interfere cada vez mais na iniciativa privada. O país é um dos poucos que ainda resistem à investida comunista (apesar de este termo ser cuidadosamente oculto na narrativa) e que mantém a economia ativa a duras penas. Neste cenário desolador composto por empresas indo à falência, pela proliferação de um discurso vago sobre a subjetividade da realidade/da razão/do pensamento e pela negação dos mesmos, começam a desaparecer empresários, cientistas proeminentes, artistas, ou seja, indivíduos que de alguma forma contribuem positivamente para o desenvolvimento intelectual e econômico da humanidade.

Uma expressão acompanha a história e está sempre sendo dita pelos personagens principais ou secundários: Quem é John Galt?, ela é utilizada como um sinônimo para “Quem se importa”, “O que se pode fazer?” ou qualquer expressão que denote um profundo pessimismo frente ao caos eminente.

 

Personagens

A personagem principal é Dagny Taggart, herdeira (junto com o irmão James) de uma ferrovia, a Taggart Transcontinental onde atua como vice-presidente. É o cérebro racional por trás das operações, aquela que não se deixa corromper pelo discurso subjetivista, e aquela que fará o que tiver que ser feito para que a ferrovia que seu avô construiu continue funcionando.

Quando o estado começa a interferir nas empresas privadas, um dos problemas que surgem é a escassez de obra-prima. Um dos primeiros problemas é a falta de trilhos, portanto, Dagny vai atrás de Hank Rearden, um magnata das siderúrgicas e encomenda um metal que ele inventou. O metal Rearden é mais leve, mais barato e melhor que aqueles usados comumente nas ferrovias, e por ser uma invenção recente é visto com desconfiança.

Dagny e Rearden serão os personagens principais nessa luta pelo direito à propriedade privada, pela livre iniciativa, pelo capitalismo em seu significado mais puro, fazem parte dos indivíduos que sustentam o mundo, são eles aqueles a quem a metáfora se refere como Atlas. Na mitologia grega, Atlas é o titã que carrega o mundo sobre os ombros.

 

SOBRE O ROMANCE E A AUTORA

Atlas Shrugged da escritora russa de origem judaica Ayn Rand, foi publicado em 1957, lançado no Brasil com o título Quem é John Galt? em 1987 e depois em 2010 como A Revolta de Atlas. Trata-se de uma mistura de ficção e filosofia com componentes da ficção científica onde a autora lança as bases para suas convicções políticas, suas noções de individualismo, autossustentação e capitalismo que integram seu sistema filosófico, o Objetivismo.

Ayn Rand nasceu em São Petesbugo em 2 de fevereiro de 1905, mudou-se com a família para os Estados Unidos em 1926 fugindo da antiga União Soviética, seu trabalho sendo fortemente influenciado por este momento. Trabalhou em Hollywood no período entre 1935/6 escrevendo roteiros. Ficou conhecida por seu romance The Fountainhead (A Nascente), lançado em 1943.

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PONTOS POSITIVOS

A Revolta de Atlas se tornou um dos meus livros favoritos. É bem escrito, possui uma trama intrigante, tem frases que são verdadeiras pérolas (colocarei algumas abaixo), e será necessário um nível altíssimo de abstração para que este livro seja apenas um livro e não algo que te modifica com a leitura. É ligeiramente desesperador porque pode-se reconhecer nosso próprio mundo caótico neste distópico da narrativa.

Dagny Taggart é uma das melhores personagens femininas que já tive o prazer de ler. Ayn Rand escreve na década de 50 e coloca em sua personagem características que as mulheres contemporâneas ainda tem dificuldades em obter, lugares em que ainda são difíceis de ocupar. Ela é a vice-presidente de uma das maiores empresas dos Estados Unidos, é segura de suas capacidades intelectuais, é magnífica ao expor suas ideias, é destemida em um mundo em que o medo é coletivo.

Nesta edição de 2010, o romance é dividido em 3 livros. O primeiro é aquele em que apresenta os personagens e o mundo de caos em que eles vivem, a ascensão do Subjetivismo como corrente filosófica predominante e os esforços desesperados para salvar a economia. Os primeiros intelectuais e empresários começam a desaparecer.

O segundo traz o Estado com poderes quase totais sobre a propriedade privada, iniciam-se as privatizações, inúmeras empresas vão à falência.

O terceiro é sobre John Galt. Ficamos sabendo que os desaparecimentos são, na verdade, indivíduos que se juntam a uma greve. Uma greve pelo direito ao pensamento, ao uso da razão. E aqui eu não darei nenhum spoiler porque a parte realmente boa é descobrir que greve é essa, o que ela pretende, quem é John Galt e o que ele representa. A genialidade dos diálogos é… bom, genial (com o perdão da redundância).

O romance defende a racionalidade, a aceitação da realidade enquanto valor absoluto que independe da percepção individual, defende que não existe contradições e que se ela se apresentar o que deve ser feito é a análise de suas prerrogativas, defende o ateísmo como base para a liberdade de pensamento. É um livro repleto de pontos para reflexão.

 

PONTOS NEGATIVOS

Este livro recebeu inúmeras opiniões negativas quando foi lançado e permanece extremamente polêmico pelo que propõe e pelo que sugere explicitamente. A parte negativa não está aí. Ser polêmico para mim é uma qualidade. Acontece que Ayn Rand trabalha nos extremos e em um momento do livro, determinado personagem faz um discurso abominando aquele que ocupa o centro. De qualquer forma, neste caso, acho que ocupar o centro é essencial.

A base de tudo o que se apresenta no romance é a meritocracia. Exemplos clássicos do individuo que fez sua fortuna “do nada”, da mulher que chegou ao lugar “do homem” na hierarquia da empresa e etc. Ok. São clichês interessantes em uma narrativa (apesar de estarmos meio saturados desse discurso encomendado da elite), mas são demasiadamente simplistas e não condizem com a realidade. Oculta as raízes do problema, joga a culpa da miséria nas mãos das vítimas, delimita um abismo econômico e social intransponível.

 

♠♠♠

A Revolta de Atlas é um romance criado na época do medo impalpável da Guerra Fria, na época da ameaça vermelha onde qualquer intervenção social, qualquer assistencialismo era visto como uma ameaça comunista ao capitalismo. É compreensível em sua época, é perigoso pelo que defende, é espetacular e instigante e deve ser lido por todo o mundo. Traz ideias maravilhosas e a defesa da razão é simplesmente magnífica. Leiam. Vale a pena.

 

 

Um FELIZ ANO NOVO! e muitas listas

Feliz Ano Novo!!!

Aqui estou sobrevivendo mais um ano, inspirada pelas listas de desejos nos sites de compras de livros, pelos filmes e séries, pelo “frescor placebístico” do ano que se inicia e pelas listas de desafios literários que encontrei pelos blogs e vlogs da vida e as quais pretendo seguir neste ano. Eu sou péssima em listas e metas de leituras, já vou avisando. Gosto de ir até minhas estantes e “descobrir” o que quero ler, gosto de acordar com determinado título na cabeça e lê-lo, gosto de ter Stephen King em todos os meses do ano, mas descobri que com isso alguns livros passam anos e anos em seus lugarzinhos sem serem lidos, portanto, vou tentar seguir alguns desafios que pesquei de algumas páginas (deixarei os links).

O PRIMEIRO DESAFIO é do ano passado e que falhou miseravelmente. Em 2015 tive a intenção de ler um livro por mês daquele livrão intitulado 1001 LIVROS PARA LER ANTES DE MORRER. Pois bem, como pretendo viver por muito tempo tive a ideia de ler PELO MENOS um por mês. Tenho vários deles em casa e isso deixa tudo mais fácil.

 

O SEGUNDO DESAFIO é READING CHALLENGE dos usuários do Goodreads e ele tem 52 opções. Este desafio foi pescado deste blog foufo chamado “Tudo que motiva” .

Dêem uma olhada nas opções e venham todos para o desafio.

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O TERCEIRO DESAFIO é o CALENDÁRIO VÍTOR MARTINS. Assim, nunca tinha ouvido falar deste moço e nem de seu canal no YouTube. Fiquei sabendo dele através do blog linkado acima. Achei lindo este calendário e gostei das opções (inclusive já li o referente a Janeiro, hahaha), vou opinar sobre o livro em questão na sexta-feira dia 08/01. O canal no YT é este aqui , e você pode fazer download do calendário lindíssimo aqui.

 

O QUARTO DESAFIO é o RORY GILMORE BOOK CHALLENGE simplesmente porque eu amo Gilmore Girls, amo a Rory, amo tudo e até canto a theme song quando estou tomando banho. E este desafio é mais fácil porque aparentemente ela leu todos os livros que eu quero ler. A lista dos livros lidos ao longo de sete temporadas está aqui.

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Agora vamos ao “momento realidade”. É muito provável que eu não vá conseguir ler para todas estas categorias e é ainda mais provável que eu vá enfiar desafios no meio destes aí porque em minhas andanças pela internet encontrei outros que me pareceram incríveis. Não sei os dias das postagens sobre minhas opiniões porque ainda não cheguei a este nível de organização da vida (estou trabalhando no não-abandono desde blog em 2016… oremos).

Espero fazer de 2016 um ano mais produtivo nas leituras e espero não perder meu tempo precioso com porcarias tipo O DEMONOLOGISTA (sério, este livro é meu trauma literário). Bom, minha gente, é isso… não me deixem sozinha nos desafios. Beijos procês.

(Livros Opinados) O Demonologista

Olá, meninos e meninas

Voltei com este blog, voltei com as resenhas, voltei com as histórias e espero não ir embora tão cedo.


Autor: ANDREW PYPER

Editora: DarkSide

Tradução: Cláudia Guimarães

Ano: 2015

317 páginas.


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Minha linha do tempo do Facebook começou a mostrar booktrailers de O Demonologista em janeiro. Cheios de efeitos luz & sombra, de frases de impacto, e com uma sinopse interessante, o livro chamou a atenção dos amantes do terror e eu, uma deles, fiquei ansiosa para ler aquela história que começava a ser comparada com O Exorcista e O Iluminado. Bom, devo dizer que a equipe de marketing da editora DarkSide está de parabéns.

O Demonologista conta a história de um professor ateu com sérias inclinações depressivas, especialista em O Paraíso Perdido de John Milton que certo dia recebe a visita da Mulher Magra (aparentemente a única característica marcante desta personagem), que por sua vez lhe diz que seus serviços como Demonologista estão sendo contratados. Por quem? Ela não pode dizer. Por quê? Ela também não pode dizer. Para quem ela trabalha? Nope. Não. No. Logo, o professor deduz que ela trabalha para a Igreja. A Mulher Magra deixa um envelope sobre a mesa do professor, com duas passagens de primeira classe, dinheiro, reservas em um hotel dizendo que tudo o que ele tem que fazer é viajar para Veneza e esperar por um endereço. O professor diz que não irá aceitar o serviço (o que provavelmente todo ser humano normal diria nestas circunstâncias), mas a mulher não quer saber, diz que está orientada a apenas fazer o convite e vai embora.

O professor ter uma filha, Tess, que compartilha de sua depressão e com quem tem uma ligação forte. Logo, quando este recebe um pedido de divórcio da mulher, é quase certo que a filha fique com ele.

E é aí que a coisa degringola.

Meio atarantado com a ideia do divórcio, o professor David Ullman decide que irá utilizar aquelas passagens aéreas de primeira classe e todo aquele dinheiro suspeito vindo de uma mulher que ele nunca viu, com a filha em uma viagem classuda a Veneza. Nada mais natural que tomar uma decisão como esta, hã? Pois é.

Chegando a Veneza, após servir de guia turístico para a filha e “se perder” poeticamente na bela cidade, ele finalmente decide ir até o endereço que lhe foi dado, uma rua particularmente sinistra e uma casa meio camuflada no estilo “Sede da Ordem da Fênix”. Lá ele encontra um monte de demônios presos dentro de um único corpo que dizem disparates do tipo: “Não tenho nome porque somos muitos”. “Somos Legião” e todo aquele blá blá blá demoníaco manjado que estamos cansados de ver nos filmes de terror A, B e C. Não tão chocado quanto deveria e não tão ateu quando deveria, o professor fica observando a Coisa, filma (uma câmera foi colocada em suas mãos quando ele chegou ao tal endereço), recebe algumas citações de John Milton e vai-se embora. Interessante sobre este livro é o fato de que até gatos e cachorros citam O Paraíso Perdido. A cada passo que ele dá para longe da criatura que é muitos, sente-se mais e mais “observado” e atormentado, e no meio do caminho se pergunta se aquela visita não seria um esquema para tirá-lo de perto da filha.

Bom, não exatamente, mas…

Quando ele chega ao hotel, Tess está bem e a presença que ele sentiu ao longo do caminho, se esvai. Decide então dar um fim à viagem e retornar à Nova York. Começa a arrumar as malas e quando vai chamar a filha não a encontra. Tess está na varanda, sobre a bancada, um dos pés pendendo sobre as águas do canal… o professor vê a filha, sente que ela não é ela e sim a presença que sentiu pelo caminho e após ouvir um “Encontre-me” vê a menina se jogar nas águas turbulentas.

A história é esta, a busca de um pai pela filha amada. Um clichê muito utilizado, que tem muito apelo e que nós gostamos desde que utilizado de forma convincente. Infelizmente O Demonologista não é um desses casos. O personagem não convence, os diálogos não convencem, a história não convence.

Em muitos momentos da leitura me peguei pensando que a cena parecia saída de um daqueles filmes noir dos anos 40 onde se tem abundância de gestos exagerados (Ex: o indivíduo arrasta a cadeira, se levanta, aproxima o rosto do de seu antagonista e despeja um monólogo gigante cheio de palavras bonitas e muita moral). As próprias ações do personagem não fazem o menor sentido. Todo o lance de pegar o dinheiro desconhecido e ir viajar já demonstra o nonsensismo todo. E, ok, vi uma resenha que apontou que o personagem poderia ser um malucão afeito ao perigo… mas, em nenhum momento da história este traço de personalidade aparece. Pelo contrário, ele é um professor mundialmente reconhecido por suas teorias sobre o Satanás de Milton, não quer se divorciar porque isto iria causar uma ruptura que ele não deseja, é um cara que ama a melhor amiga e não faz nada para… bom, para não mudar seu cotidiano. Os diálogos são totalmente improváveis e as pistas que o personagem segue devem ter uma explicação razoável apenas para o autor.

Enfim…

Pontos positivos: O livro é lindo. É uma obra de arte. Aliás, os livros da DarkSide são maravilhosos fisicamente. A capa é vermelha, na lombada tem uma colagem áspera imitado livro velho, possui belíssimas imagens infernais, tem uma mini biografia de Milton e alguns dados sobre O Paraíso Perdido. Outro ponto positivo é que o livro faz uma bela de uma propaganda desta obra. Também é bem escrito, apesar de todas as frases arrasadoras, todas as piadinhas infames, todo o mimimi sentimental com a amiga colorida… gostei da fluidez da escrita.

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Finalizando, O Demonologista é minha decepção do ano e só consigo lamentar sinceramente que alguém ache que esta história tenha alguma semelhança com o espetacular O Exorcista de William Peter Blatty, ou com o sacro-santo Iluminado do mestre Stephen King.

CRASH – CAPÍTULO UM – CARTAS NA MESA

SINOPSE: Eles estão dispostos na mesa da existência como pequenas e sujas cartas de baralho que fazem parte de um todo apesar de cada uma contar uma história diferente. Dispersos, mas ligados por forças misteriosas que lhes fogem à compreensão, eles estão prestes a se encontrar em um acidente do Destino que lhes abrirá duas opções apenas: a morte… a vida!

NOTA: História inspirada pelo filme CRASH [2004].

PARTE UM – CARTAS NA MESA

CAPÍTULO UM

“… Deus age de formas extremamente misteriosas, para não dizer tortuosas. Deus não joga dados com o Universo; Ele joga um jogo inefável de sua própria criação, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos jogadores, a estar envolvido numa obscura e complexa versão de pôquer  numa sala completamente escura, com cartas em branco, por apostas infinitas, com um crupiê que não lhe diz as regras, e que sorri o tempo todo.”

[Neil Gaiman e Terry Pratchett – Belas Maldições]

 

 

I. O ENFORCADO

Quando olho para a cidade adormecida nas primeiras horas da manhã, me esqueço da Morte. De alguma forma, sob a luz morna do sol preguiçoso que acorda nesse lado do mundo, sinto que a decrepitude do meu corpo, as feridas nas solas dos meus pés, a fraqueza da minha mão – que mesmo agora enquanto digito essas palavras, treme -, sinto que nada disso importa. É tudo tão lindo! Imagino que não exista nada mais belo que ver o sol nascer em um dia de inverno. A forma como a luz dourada e aconchegante se esparrama pelos telhados, pintando-os com milhares de pontinhos cintilantes, o verde vivo das folhas contra o céu azul, o vento que entra pela minha janela e se choca sem cerimônia contra meu rosto moribundo… Tudo isto é gracioso. Tudo isto é lindo. Tudo isto faz com que a morte deixe de importar.

Engraçado como as coisas adquirem outro significado quando se está morrendo. Quando se é jovem e está morrendo. Provavelmente estar velho e ver a morte se aproximar não seja tão estranho quanto esperá-la aos 20 anos. De qualquer forma, nunca saberei. Nunca ficarei velho. Terei que me contentar com o que sei de minhas leituras e observações do mundo para continuar escrevendo estas páginas a quais pretensiosamente chamo de Livro. Alguém disse certa vez que um livro é um livro a partir do momento em que alguém o lê, ou seja, mesmo que eu faça todo este esforço em uma última tentativa de cumprir meu maior sonho, ainda não é certo que eu consiga. Mesmo que toda manhã eu saia curvado e agarrado nas paredes para conseguir atravessar a distância até aquele lugar… mesmo assim, mesmo assim não é certo que eu consiga.

E eu não tenho tempo.

Como disse antes, estou morrendo. Decidi não tentar esticar minha vida através de tratamentos exaustivos e inúteis que apenas estenderão meus dias fazendo-os cada vez mais cinzentos até que todo o meu ser acabe se mesclando a essas paredes e meus olhos desistam do nascer do sol. Quero partir vendo a beleza como ela é… quero partir levando em minha alma – seja lá o que esse conceito queira significar -, a lembrança dos dias bons, dos dias em que acordava com o som de panelas se chocando na cozinha e o cheiro de pão quente dançando pela casa… ou quando ela me dizia um “Acorde, preguiçoso”, recostada contra o umbral da porta, torcendo o guardanapo nas mãos, um sorriso nos lábios…

O Homem no Espelho

8, Novembro, 2013.

II. O EREMITA

As luzes se apagam, eu estou sozinho

Todas as árvores lá fora estão enterradas na neve

Passo minha noite dançando com a minha própria sombra

E ela me abraça e ela nunca me deixa

[Slow and Steady – Of Monsters and Men]

 

Quando ele dança toda a dor vai embora. Basta colocar os pés sobre o tablado de madeira polida e o desconforto torturante provocado pelo atrito de seus dedos nas sapatilhas, se vai, expulso pela música e pelas luzes sobre sua pele pálida. No palco vazio, os olhos fixos na platéia inexistente, todos os seus pensamentos se vão e ele se torna todo feito de música e paixão. Seus membros se torcem e contorcem com leveza e suavidade adquiridas em anos de prática, e sua sombra fugidia se deixa ver nas cortinas puxadas e nas paredes brancas. Mas hoje, ele não consegue não pensar. Mesmo que o teatro esteja preenchido pela música de Chopin, seus ouvidos estão com um estranho zumbido que não a deixa penetrar e seu cérebro se revolve com decisões a serem tomadas, conversas a serem iniciadas e batalhas a serem travadas. E ele não está preparado para nada disso.

O aparelho de som ou o rumo de seus pensamentos quebram a música e ele se sobressalta. Ao final de mais um passo mal desempenhado, Miguel senta-se na beirada do palco, as pernas balançando-se no vazio e com as mãos a apoiar-se na madeira lisa, encolhe os ombros, o rosto pendendo, o queixo encontrando o peito. Fecha os olhos e adentra aquele domínio que pertence a si apenas. Isola-se do que o cerca, isola-se até mesmo da música envolvente e repassa mais uma vez na mente a voz da oportunidade que lhe chegara horas mais cedo através de seu professor.

“- Jeno,” – ele o chamara pelo apelido que sua irmã lhe dera na infância. “– Abriu uma vaga para o ballet regional e me pediram um nome. Quero dar o seu. O que me diz?”

“- Eu… não estou pronto ainda.” – a mentira saíra leve de seus lábios e o professor o observara com o cenho franzido, entrevendo a verdade oculta em sua íris castanha. No momento a frase lhe parecera muito mais fácil de proferir do que entrar em detalhes sobre seus verdadeiros motivos, aqueles que o fazia negar aquele desejo tão longamente acalentado e que agora recebia uma possibilidade de se converter em realidade.

“- A única coisa que te falta é confiança, Jeno.” – o professor colocara a mão em seu ombro, apertando-o suavemente como que a tentar lhe passar confiança através das pontas dos dedos. “- O que o prende?”

Ele não respondera, apesar de ter a resposta na ponta da língua.

“- Eu nunca vi seus pais ou sua irmã aqui. É por causa deles que hesita?”

“- Sim.” – respondera com sinceridade porque não fazia sentido algum mentir sobre o assunto. Seus primeiros pensamentos, mesmo que se esforçasse pelo contrário, sempre se voltavam para as figuras quietas a assistirem novela na sala da televisão. Por mais que desejasse ser um daqueles seres arrojados da ficção que seguiam seus sonhos mesmo ante as dificuldades, os pais e a irmã lhe pareciam rochas impossíveis de serem escaladas ou mesmo contornadas. Família não é algo que se descarta, não?

Fora deixado sozinho com um “Pense bem e me dê a resposta até o fim da semana.” Não precisava pensar. Seu desejo era claro e a resposta que gostaria de dar estava pronta, mas… o que eles diriam? E seus amigos? E Gustavo? Como dizer a qualquer um deles que fazia aulas de ballet desde os seus oito anos e que já se apresentara diversas vezes sem que qualquer um deles ficasse sabendo? Como dizer ao pai que ele, seu filho exemplar, mentira durante anos dizendo ir para as aulas de futebol quando na verdade tomava o caminho oposto? Deveria lançar a culpa na avó? Afinal, ela sempre fora a ovelha desgarrada e deliberadamente esquecida pela família. Considerada excêntrica demais para conviver no seio da virtude e dos bons costumes familiares tradicionais com suas meias rendadas e pernas firmes mesmo aos 74 anos de idade, ela certamente conseguiria arcar com tal responsabilidade. E seria convincente.

Samantha Costa fora uma bailarina famosa em sua época. Interpretara os grandes papéis femininos do teatro e em algum momento da década de 70 se tornara um ícone do feminismo. Sua maior contribuição às causas das mulheres fora recusar um pedido público de casamento do pai de seu primeiro e único filho, pai de Miguel, e tal acontecimento contribuíra para mantê-la nas capas de revistas de fofoca por muitos meses. Quando a criança nascera, ela protagonizara outro escândalo ao se recusar a largar o ballet e, com o filho criado nas dependências dos teatros, continuara seu sonho.

Fora ela quem descobrira o sonho do neto ao vê-lo assistir a uma de suas apresentações gravadas em vídeo. Fora ela quem começara a se balançar no meio da sala, o porte idoso ainda impecável, ereta, firme, as costas perfeitamente alinhadas… e com um sorriso ligeiro e poderoso – porque em seu rosto, sempre que ela se dignava a sorrir, conseguia-se entrever a majestade de seus modos – o convidara a acompanha-la ao som de Tchaikovsky. E ele fora, no início com uma timidez própria de sua idade e também vinda da voz de seu pai exortando-o a ser “homem” e ir para a escolinha de futebol…

“- Você é gracioso, menino.” – ela dissera com certo orgulho, e então completara – “Gracioso de um jeito que sua irmã nunca será.”

Sentira estar cometendo uma traição contra Sabrina, sua irmã mais nova, ao ouvir aquela frase que deixava claro que os adultos tinham preferências no que concerniam as crianças, mas se permitiu só naquele momento, esquecer-se dela, esquecer-se de seu rosto fechado e perpetuamente irritado, e curtir o momento em que finalmente descobria sua vocação ainda aos oito anos de idade.

Ergue os olhos quando ouve a porta se abrir e fechar com um click e uma lufada de ar gelado. Mais uma vez ela entra sorrateiramente, pequena e delicada com seus cabelos pretos e lisos presos em uma trança, e com passos imperceptíveis senta-se na última fileira e ali fica à espera.

Este momento acontece já há dois meses. Todos os dias de ensaio, neste mesmo horário, as mesmas portas se abrem e ela entra e senta-se na mesma cadeira. Miguel está acostumado às pessoas que eventualmente vem assistir aos ensaios, geralmente alunos da universidade de artes que desejam se familiarizar com o trabalho ou mesmo estudar seus movimentos para que os descrevam em trabalhos, mas, esta garota silenciosa o intriga especificamente. Ela não se encaixa no perfil de aluna de universidade porque parece ser muito nova, e certamente não é uma jornalista, então… o que ela é? Uma simples curiosa? Uma amiga de sua irmã contratada para segui-lo?

De qualquer forma, inconscientemente começou a fazer suas apresentações para ela. Sente que se esforça mais na perfeição de seus movimentos quando consegue vê-la sentada na plateia. Deseja que ela gaste bem seus minutos, mesmo que seus motivos lhe sejam desconhecidos… deseja que ela não se desaponte, e então… quando ela já está devidamente acomodada na poltrona que parece grande demais para seu corpo, ele se levanta, aperta o play no pequeno aparelho de som, e toma sua posição no centro do palco… Mais uma vez a peça dos cisnes… mais uma vez aquela música que começa tão suave, tão tocante, tão linda, tão inocente e esperançosa, as notas festivas dando tom à festa de aniversário do Príncipe Siegfried.

Do palco ele a vê juntar as mãos pequenas sobre o colo.

Ele rodopia pelo palco, contracenando com bailarinas invisíveis que dão vida às donzelas da Corte, quase sorri com a magnificência da festa que foi montada para ele, Siegfried. Mas a noite cai e com ela descem a terra, as trevas e Rothbart, o Mago maligno que a tudo espreita. A música se torna grave, um aviso ao príncipe desavisado que caminha à beira do lago… e então ele a vê, Odette… a princesa cisne, belíssima em sua tristeza.

Na plateia, a garota pequena se inclina para frente.

Odette diz não, Odette foge, mas Siegfried é eloquente, apaixonado ao ponto de ser inconveniente. Odette se apaixona, mas seu algoz maligno sorri nas sombras. O bailarino arqueja ao sentir o riso maldoso de Rothbart, aquele riso que não existe na música e sim em sua cabeça e que deixa claro seus planos de destruir o amor da princesa-cisne.

Rothbart traz Odile pela mão.  Odile, a feiticeira… tão parecida com Odette e ainda assim tão diferente. O bailarino sente em seu âmago o aviso da música que parece implorar a Siegfried que não se esqueça da promessa que fez à Odette… mas, Odile está ali à sua frente… tão desejável, tão excitante… tão proibida!

Odile faz seu feitiço. Siegfried se esquece de Odette.

Odette se perde.

As notas evoluem de forma a se tornarem terrivelmente angustiantes… o desespero de Odette e seu suicídio… a música deixando de ser sobre cisnes e maldições e se tornando uma verdadeira metáfora para sua situação… sente toda a carga de emoção começando a enchê-lo como se fosse um recipiente de vidro onde se adiciona água… muita água… que vai se tornando turva, escura, preta… e então, a música recua… apenas para tomar fôlego… para respirar e para prepará-lo mais uma vez para aqueles sentimentos convulsos… ela retorna com aquele toque de trivialidade, tentando enganar o que observa, tentando dizer que nada é tão sério quanto parece… mas, a escuridão está presente… está lá, à espera… de alguma forma… ela está lá…

Está sempre lá… à espreita…

[Conto] Doença

Eles estão na sala.
Das sombras tenho uma visão privilegiada da cena que se desenrola. Eu não os atrapalho e eles não me vêem. A criatura está sentada na cadeira de rodas, a manta axadrezada em vermelho sobre as pernas moles e largadas frouxamente sobre o apoio para os pés, as mãos de dedos longos e extremamente pálidos descansam no colo, e a camisa de linho branca quase se mistura à palidez da pele do pescoço desta coisa, que diariamente rouba a aparência de um menino.
Ele fita as sombras com seus olhos pretos, estes dois precipícios fundos que parecem escavados nesta pele de mármore, e os lábios amarelados estão crispados em uma expressão predatória… não! Sugadora. Sugadora é a palavra. Há um quê de petulância nas íris que lhe deforma a feição monstruosamente bonita e delicada, e mesmo que ele permaneça em silêncio, a impressão que tenho é a de que sua voz zombeteira logo partirá seus lábios em um sussurro carcomido.
Ao seu lado, afundada nas mantas de uma poltrona desconfortável, ela olha o chão monótono enquanto espera. Eu sei que seu corpo magro e maltratado está todo machucado e cheio de marcas de dentes de onde sua cria doentia sugou sua vitalidade. Sei que ela nada fará contra ele… não sucumbirá ao ódio, ao desejo de sobrevivência ou à liberdade. Nunca erguerá suas mãos de dedos longos para laçar o pescoço da coisa, nunca passará a navalha afiada neste pescoço gélido… Ela sucumbirá à morte que certamente virá levando-a desta jaula sem grades. Junto com o fluído espesso de suas veias se foi a luz em sua mente, tudo o que ela vê é escuridão, tudo o que sente é esse apelo, tão forte e essencial quanto o cordão umbilical que um dia alimentou a coisa ainda em seu ventre, e que agora exerce sua influência psíquica e a puxa e mantém cativa.
A influência desta besta em corpo infantil se apresenta ante meus olhos quando o relógio bate as horas. Apenas um olhar malicioso vindo destes precipícios basta para que ela erga seu corpo cadavérico e ajeite meticulosamente as próprias roupas, brancas e elegantes, os movimentos ligeiramente tolhidos pela fraqueza extrema. Quando passa por mim envia um olhar alheado, indiferente e eu não me atrevo a esboçar qualquer movimento. Não tenho em mim nenhuma espécie de impulso heróico.
Escondo-me atrás das cortinas de veludo preto nesta sala pálida e espero. Já consigo ouvir o riso leve e despreocupado da convidada, tão inocente que me faz estremecer de pavor. A inocência é pavorosa.
Vejo seus pés pequeninos calçados em botinas feitas sob medida e que aparecem sob as calças jeans justas evidenciando a maciez de seu corpo jovem, o tronco envolto por um casaco de lã cor-de-rosa, e as mãos rechonchudas desta jovem que ainda não teve sua primeira menstruação, surgem, viçosas, saudáveis entre as mangas delicadas.
Sinto seu choque quando ela vê a criatura pela primeira vez e a respeito por sua delicadeza inata que a faz resguardar dentro de si qualquer pensamento funesto acerca de seu anfitrião. Aproxima-se sem nada suspeitar e senta-se perto demais… Afaste-se, menina… afaste-se!
– Minha mãe falou para eu vir até aqui conhecê-lo. Seremos vizinhos agora. – ela fala enquanto deixa o corpo inclinar-se para frente, estudando o rosto doente do garoto.
A mãe cadavérica está agora ao meu lado, os braços finos abraçando o próprio corpo, o rosto destituído de qualquer emoção enquanto ela provê o alimento à sua cria. Nada mais importa para ela… apenas a subsistência de sua criança. Não é amor. O que ela sente não pode ser explicado pela razão ou por algum livro de regras e etiqueta humana… esta abnegação que vejo em seus olhos, esta ausência de emoção… isto é a Morte.
A garota-criança espera uma resposta que não vem.
Vejo a expressão sugadora da criatura se transfigurar com o brilho predatório, os vasos sanguíneos se dilatando no branco leitoso dos olhos, as pupilas aumentando tanto que a garota salta para trás, aterrorizada demais para gritar. Vejo quando a coisa salta da cadeira, os movimentos erráticos, desejosos, bruscos, o braço crispado se tornando um gancho poderoso a enlaçar o pescoço da pobre garota. Consigo sentir seu desespero e perplexidade quando ele finca seus dentes no pescoço macio e suga o sangue espesso com aquele barulho horrível de sucção.
Fico ali enquanto os movimentos da garota se tornam pesados e continuo ali quando eles param totalmente e o garoto se ergue, agora já não mais necessitado da cadeira de rodas, deixando o corpo resvalar ao chão como um saco de lixo. A mãe-cadáver retira um lenço do bolso da saia e limpa cuidadosamente os lábios de sua cria… e então se volta para mim.
– Vem, vamos jantar.

Iniciando

Olá, visitante…

Quero pensar (e vou) que você chegou aqui com a intenção de ler histórias de ficção em etapas, seja lá porque você tem pouco tempo disponível para ler livros (físicos ou não), seja porque você tem preferência por ler coisas que encontra pela internet. Nos dois casos… eu gosto de você.

Este blog é o depósito onde colocarei minhas histórias que até então viveram confinadas nas pastinhas do meu computador sem ter quem as lesse. Escrever não faz muito sentido se não existir aquelas criaturas corajosas que se dispõem a dar uma chance a um pobre escritor (ainda, sou otimista como podem ver) sem nome e sem livro. Espero de todo o coração que você seja uma destas criaturas corajosas e… quem sabe? Talvez você até mesmo disponha de alguns minutos para me escrever suas impressões.

Antes de colocar um ponto final neste início, deixe-me lhe explicar o título. A CASA DO SOL NASCENTE. É uma música (The house of the rising Sun). Uma música espetacular que me enche de uma centena de imagens e possibilidades e, em muitas das histórias que crio consta como trilha sonora. Esta maravilha fonográfica é uma música folclórica norte-americana (segundo a Wikipédia) e já foi gravada e regravada por muita gente. A versão mais famosa e minha favorita é aquela do THE ANIMALS. Ouça. Vale a pena.

Pretendo postar um capítulo por semana e é muito possível (e muito provável) que eu vá escrever mais de uma história ao mesmo tempo. Tenho certa compulsão, confesso. Tenham paciência comigo, sintam-se à vontade para ler e comentar e criticar…

E… Sejam bem vindos.

 

 http://www.youtube.com/watch?v=MgTSfJEf_jM