Dicas Literárias, Opinações Literárias, Romance

Dicas Literárias ♦ 5 livros de Stephen King com personagens femininas fortes

Se existe uma coisa que meu mestre Stephen King sabe fazer bem é criar personagens. Ele desenvolve, não se apressa, toma seu tempo e acaba escrevendo personagens que dão a impressão de serem nossos velhos conhecidos. Ele humaniza mocinhos e bandidos e, para minha tristeza e lágrimas copiosas, até mesmo cachorros.

Eu, enquanto leitora ávida de livros de terror, fantasia, ficção científica e afins, sempre senti que faltava alguma coisa nas histórias: sempre senti falta de personagens femininas fortes, mulheres que parecessem reais e não um delírio cultivado pela cultura patriarcal.

Não sei vocês, mas, minha frustração sempre foi épica quando os escritores – geralmente homens – acabavam fazendo aquela mocinha irreal, estereotipada, cheia de caras e bocas e muito grito desnecessário. Stephen King nunca me decepcionou com suas personagens. Encontrei O Iluminado quando tinha doze anos e nunca mais passei um ano da minha vida sem ler pelo menos um livro do mestre. Li quase todos, mas… a parte boa é que as releituras estão há uma vontade de distância.

Neste post vou falar sobre algum das personagens femininas fortes que encontrei na Kinglândia. Venham comigo.

 

Rose Madder (Rosie McClendon)

Rose Madder

 

Rose Madder é um livro maravilhoso publicado em 1995 nos EUA (2001 no Brasil) e que fala sobre relacionamento abusivo em seu grau máximo. Rosie McClendon Daniels é uma mulher que passou nove anos de sua vida sofrendo as piores torturas nas mãos de seu marido, Norman.

Certo dia, ela está arrumando a cama e vê uma gota de sangue. Seu sangue. Que saiu de algum lugar de seu corpo após levar uma surra rotineira. Esta gota de sangue a desperta. Sem pensar, ela pega sua bolsa, um cartão de crédito e, com a roupa que está no corpo, ela foge de seu abusador.

Esta é a sinopse simplíssima deste livro incrível. Rosie é uma das personagens mais fortes de Stephen King e Norman Daniels, sem sombra de dúvidas, é um dos vilões mais aterrorizantes.

Eu sinceramente não sei por que este livro não é tão mencionado nas muitas listas de melhores livros de SK. Talvez porque ele tenha algumas conexões com a série A TORRE NEGRA e que, a exemplo de A COISA, o final faça bem mais sentido a quem conhece a saga.

No entanto, é um livro que merece ser lido. Rosie é aquela mulher que a vida desgraçou até não poder mais, que viveu uma situação de abuso extremo, mas que um dia ela acorda e foge do horror. Também há muita cooperação entre mulheres, apoio, sororidade.

A fuga de Rosie faz com que Norman a siga, e essa caçada é uma das coisas mais tenebrosas que eu já li.

P.S.: ROSE MADDER tem muitas conexões com o multiverso de SK e ligações diretas com A TORRE NEGRA. Quem conhece a série, aconselho a leitura porque é sempre um prazer encontrar os easter eggs. Quem não conhece a série… bom, leia pela história e, se você achar o final estranho… leia A TORRE NEGRA. :p

– Há também uma menção à Misery.

 

“(…) aos poucos a ideia de deixa-lo – nunca completamente articulada, para começar – dissipa-se como a noção do mundo racional do acordado se dissipa no sono; aos poucos, não resta nenhum mundo para ela senão o sonho em que vive, um sonho como os que tinha quando garota, quando corria e corria como num bosque sem trilhas ou num labirinto sombrio, com o ruído dos cascos de um poderoso animal atrás dela, uma criatura temível e insana que chegava cada vez mais perto (…).” (KING, 2013, pg. 16).

 

Jogo Perigoso / Gerald’s Game (Jessie Burlingame)

Jogo Perigoso

Já falei deste livro neste post aqui. Jogo Perigoso é outro livro que merece ser citado nas listas de melhores livros (e como eu sou suspeita pra fazer listas de melhores do SK, vou deixar pra lá).

Jessie e Gerald estão casados há mais de dez anos e o casamento entrou em um marasmo brabo. Para ajudar a melhorar a situação, o marido sugere alguns jogos sexuais.

O que poderia ser uma coisa interessante acaba se tornando um problema, afinal, Gerald começa a precisar de situações cada vez mais realistas para funcionar (if you know what i mean…).

Certo dia, eles tiram o dia de folga e partem para sua casa de férias. Chegando lá, Gerald não perde tempo e prende Jessie na cama com algemas de verdade. Em um livro de um escritor menos maroto, isso renderia umas páginas de sacanagem, um Mr. Grey sarado dando sorrisinhos e uma Anastásia desmaiando de emoção… mas, SK não é qualquer escritor. SK é o mestre da porra toda.

O que se segue é uma loucura cheia de ansiedade e desespero em pouco mais de 300 páginas. Daí você me pergunta: Mas, Cinthia, uma mulher amarrada na cama por mais de 300 páginas não deixa qualquer livro um tédio? A resposta, minha cara leitora, meu caro leitor é: Não mesmo!

Jessie se irrita com a empolgação idiota e meio assustadora do marido, pede pra parar, ele nega porque é um boçal, ela chuta ele, ele tem um enfarte e morre. Aí está a situação inicial de Jessie Burlingame: presa em uma cama, em uma casa no meio do nada, com a porta da sala aberta, um cachorro faminto e perdido, o corpo do marido, e uma coisa assustadora que pode ser real ou não.

Jessie é uma personagem que tem tudo para ser mais uma pobre mulher em um relacionamento de abuso psicológico (e, se desse tempo, de abuso físico) da história da literatura. Comum. Trivial.

Mas, Jessie não é só uma mulher em perigo… ela é também uma mulher com um passado traumático, que tenta fugir de seus demônios e que depois, cansada de tanto fugir, se obriga a encará-los.

P.S.: Este livro possui referências de Eclipse Total (Dolores Clairborne, no original) e Trocas Macabras (Needful Things, no original). E se passa nos arredores de Castle Rock, cidade fictícia muito conhecida dos fãs do mestre.

 

O Iluminado / The shining (Wendy Torrance)

O Iluminado

Eu honestamente sinto muito por quem só conhece a Wendy daquele (tédio em forma de) filme do Kubrick. No filme, ela não passa de uma maluca que fica gritando o tempo todo, caindo o tempo todo, chata pra caralho.

Já começo dizendo que não gosto do filme. Minha opinião, não é um ataque pessoal aos fãs, e eu tenho plena ciência de que o Kubrick é um puta diretor fodástico (inclusivo tenho amigos que… hehehe… brincadeira!), tenho biografia (tudo isso pra dizer que não é um ataque pessoal ao diretor ou aos fãs, portanto, não me matem). Tenho certeza de que a forma como o filme foi feito tem muito valor artístico, blá blá blá, mas isso não me impede de acha-lo um porre gigantesco, com alguns bons momentos.

All-work-and-no-play

 

Enfim, o que mais me deixou pistola com o filme foi a (des) caracterização da Wendy. No livro, ela é uma mulher incrível. É calma, sensata, sabe que o marido é um alcoólatra com problemas psicológicos sérios. Além disso, ela é uma mãe incrível.

No filme, ela é aquela descontrolada que, bom… faz o papel de toda mulher sob pressão, nénão? #risos

Bom, vamos à sinopse. Jack Torrance é um professor que foi demitido por dar um sopapo em um aluno canastrão. Sem emprego, tentando ficar sóbrio – após ter quebrado o braço do filho Danny quando o menino tinha apenas três anos, em um de seus episódios de bebedeira -, esse cidadão de bem vai em busca de uma vaga para zelador no Hotel Overlook, um local de luxo, com péssima reputação situado no meio das Montanhas Rochosas.

Ele consegue o emprego e se muda com a mulher e o filho para o hotel, onde vai cuidar do local durante o inverno, ou seja, seis meses incomunicáveis pela neve em um hotel que conta com moradores menos corpóreos e com tendências assassinas.

Só o isolamento já é suficiente para qualquer um despirocar, mas Jack… Jack já é despirocado e está a um passo da insanidade clínica. Sendo assim, ele é uma vítima fácil para o hotel e seus moradores fantasmagóricos.

Danny, o filhinho do casal, é o iluminado do título. Ele consegue ver paradas que os outros não conseguem e o hotel é um vórtice para coisas ruins. Entre ele e o mal absoluto está Wendy.

Wendy é uma mulher incrível, eu já disse isso. E, ao contrário do filme, ela não fica gritando apenas. Quando a coisa vai para o brejo, ela é aquela que vai proteger o menino Danny com todas as suas forças.

P.S.: Este livro vale a pena ser lido porque ele já é um clássico do terror. Sim, sinto muito haters. SK passa quase metade do livro só montando o cenário, criando belamente os personagens, criando o clima. Livrão de terror de qualidade.

P.S. 2: O Iluminado tem uma continuação, Doutor Sono. Muita gente detesta, muita gente gosta. Eu estou no segundo grupo. Doutor Sono tem conexões com muitas coisas legais, além disso, reencontrar um Danny adulto e todo fodido psicologicamente, é uma experiência única. Leiam.

P.S. 3: O Iluminado tem conexão com A Coisa. Dick Halloran (o outro iluminado que é cozinheiro no Overlook) morou em Derry e foi um dos poucos sobreviventes ao incêndio no Black Spot.

 

Cujo (Donna Trenton)

Cujo

Cujo (teve uns tempos que ele foi traduzido como Cão Raivoso) é mais um livro sobre personagens confinados e em situações tenebrosas. A sinopse não pode ser mais simples: Certo dia, Donna e seu filho Tad de quatro anos, vão levar o carro que está com problemas, ao mecânico. Mal conseguem chegar e o carro para de funcionar.

O problema é que não há ninguém na oficina, exceto um cachorro São Bernardo gigantesco que está com raiva. Cujo (o nome do cachorro) está louco e não deixa Donna sair do carro.

Ninguém sabe que ela está ali, o marido está fora da cidade em uma reunião de negócios, o carteiro só vai passar no dia seguinte e pode ser que ele não tenha cartas para entregar ali, o sol está fazendo o carro se tornar uma estufa superaquecida, não há água ou comida e… bom, eu poderia continuar a lista de desgraças, mas vocês já entenderam.

Donna é outra mãe maravilhosa, basta que vocês leiam a situação perrengosa que já dá pra sacar. É um livro ótimo, que desperta o nervosismo até em quem é mais de boas, e é tão envolvente que você nem se dá conta de que toda a ação se passa dentro de um carro.

P.S.: Cujo se passa em Castle Rock e tem conexões diretas com A Zona Morta (The dead zone), no primeiro capítulo. É interessante reconhecer muitos moradores da cidade que já apareceram em outros livros.

 

A Torre Negra / The Dark Tower (Susan Delgado)

Mago e Vidro

Coloquei esta série aqui porque eu não poderia terminar esse post sem falar da Susan Delgado, uma das melhores personagens da saga. Mas e a Susannah (Detta/Odetta)? Vocês que leram vão me perguntar. Olha, eu não posso explicar o quanto a Susannah é foda em apenas uma minúscula parte de um post. Um dia, quando eu tiver coragem, faço um super post sobre A Torre Negra com uma parte só para ela.

Em um resumo bem ridículo e que não dá conta de nada, aqui vai: A Torre Negra é sobre um pistoleiro (um dos últimos de sua gente), chamado Roland de Gilead, que está em busca da Torre Negra, que é o centro do universo, aquilo que dá sustentação aos feixes, ou às outras (muitas) realidades.

É um negócio monumental que fará com que muitos finais de livros do SK façam mais sentido (inclusive o final de A COISA), que é impossível de se resumir em um espaço tão pequeno.

Susan Delgado é o grande amor da vida de Roland. É uma moça que vive numa cidadezinha miserável e que tem que lidar com o ódio e o ciúme de uma bruxa que só quer lhe fazer mal.

P.S.: A Torre Negra é uma saga em sete livros + um, que dá sustentação à maioria dos livros de Stephen King. Todas as conexões entre o livros se tornam bem mais inteligíveis, e alguns finais se tornam uma parada cósmica que é incrível. Então, sintam-se convidados a fazerem esta jornada inesperada.

Eu poderia citar muitos outros livros com personagens femininas fortes, mas optei por escrever sobre aqueles que não estão tão em evidência. Fica aqui minha menção honrosa para Beverly Marsh (minha queridinha perpétua de A Coisa), Susannah (A Torre Negra), Frances Goldsmith (A Dança da Morte), Louis (Insônia), Holly Gibney (trilogia Mr. Mercedes) entre outras. Muitas outras.

Foto-King-e1504203421316
Pleno
Anúncios
Dicas de séries

DICAS DE SÉRIES ♦ GRACE E FRANKIE

Grace and Frankie

Este nosso mundo altamente conectado, brilhante, cheio de imagens e sons nos garante muitas opções de entretenimento. Aliás, as opções são tão abundantes que às vezes ficamos minutos, e até mesmo horas em frente à uma tela tentando descobrir o que queremos ver, e isso faz com que deixemos passar algumas coisas realmente interessantes como Grace e Frankie.

O que me chamou a atenção inicialmente foi o elenco. Nem vou tentar fingir que sabia o que estava assistindo quando coloquei o primeiro episódio, e confesso que comecei a ver por conta das presenças lindas da Lily Tomlin e da Jane Fonda, e acabei ficando por puro amor. Caso você esteja aí se perguntando: Sim, Grace e Frankie é uma série que pode ser facilmente encontrada na senhora dona Netflix.

g-e-f-3

 

Do que trata a série

Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin) são duas mulheres na casa dos 70 anos, casadas respectivamente com Robert (interpretado pelo maravilhoso Martin Sheen) e Sol (interpretado pelo lindão do Sam Waterston) e que, em um determinado almoço ficam sabendo que seus maridos estão vivendo um romance que já dura há quase 20 anos, e que estão solicitando o divórcio para que possam se casar e ser felizes sem a necessidade de se esconderem.

Com essa bomba, a casa cai e as duas que, nunca se deram muito bem para começo de conversa, acabam tendo que aprender a conviver, deixar suas implicâncias mútuas de lado e tentar viver com a nova realidade. Enquanto Robert e Sol vão viver suas vidas na plenitude e sem precisarem viver inventando desculpas, Grace e Frankie lutam para sobreviver ao caos em que foram lançadas.

Grace é uma mulher moderna, independente, que dirige o próprio negócio além de ser um tanto quanto esnobe. Por sua vez, Frankie é uma artista, ativista dos direitos dos animais, de gente, de planta, toda hippie, livre, mãezona. O desafio mais legal que as duas enfrentam na primeira temporada é morar juntas na casa de praia que elas costumavam visitar com seus maridos.

Grace-and-Frankie

 

Motivos para assistir a esta série

♦ Elenco impecável. Além dos incríveis, consagrados, Oscarizados (vencedores e indicados, não faço diferenciações bestas) que são o elenco central, o elenco de apoio também é ótimo. June Diane Raphael (Briana) e Brooklyn Decker (Mallory) interpretam as filhas de Grace e Robert; e Ethan Embry (Coyote) e Baron Vaughn (Bud) os filhos de Sol e Frankie.

 

♦ Personagens cativantes. Todos eles têm histórias plausíveis, bem desenvolvidas, instigantes e os quatro atores principais tem uma química maravilhosa, e interpretam com muita naturalidade os personagens, afinal, a parte boa é que não tem ninguém de 50 anos interpretando um adolescente no high school. Sempre considero esse um ponto positivo.

 

♦ Problematiza temas importantes. “Sair do armário” em idade já avançada e mostrar que para ser feliz nesse mundo cão nunca é tarde demais; Amor e sexo na terceira idade, outro tema que também é problematizado de uma forma confortável, suave e engraçada sem ser desrespeitosa, além de excluir as piadinhas infames que a gente costuma ver por aí; além do super bônus que é a abordagem de temas como orgasmo, masturbação, e sexo para mulheres de uma forma divertida e acessível.

Grace And Frankie Season 3
Frankie e Grace desenvolvem um negócio que tem tudo para ser lucrativo. :p

 

♦ É uma série que equilibra muito bem a comédia e o drama. Inicialmente eu pensei que a série ficaria muito mais legal se fosse desenvolvida como uma sitcom, mesmo porque tem episódios de pouco mais de 20 minutos e todas aquelas situações poderiam ser ouro puro para barulhinhos de auditório. No entanto, na medida em que assistia às outras temporadas, mais alegrinha eu ficava por ela não contar com as risadinhas marotas ao fundo. Esta é uma série que aborda temas sérios, mas é sábia ao equilibrar a sensibilidade e a comédia, ou seja, assim como Hannah Montana, temos o melhor dos dois mundos.

 

♦ É uma criação de Marta Kauffman. Se você não conhece Marta Kauffman, permita-me lembra-la (o) de que se trata apenas da criadora de Friends, aquela série linda e espetacularosa que abalou nossas estruturas e nossas vidas para sempre. Pois é. Howard J. Morris é o co-criador, não sei quem ele é ou o que fez, mas sou grata a ele por me dar Grace e Frankie.

 

Se você já assistiu a Grace e Frankie deixa aí embaixo o seu comentário me dizendo o que achou.

Opinações Literárias

OPINAÇÕES LITERÁRIAS ♦ JOGO PERIGOSO – STEPHEN KING

Jogo Perigoso 1

Stephen King é, sem dúvida, um dos meus autores favoritos, afinal, suas histórias são sempre envolventes (com pouquíssimas e lamentadas exceções), com personagens e tramas muito bem desenvolvidos, além de estes parecerem estar sempre além do bem e do mal, ou seja, eles são sempre mais complexos que uma simples divisão maniqueísta do mundo. O livro Jogo Perigoso (Gerald’s Game no original), publicado pela primeira vez em 1992, é um exemplo perfeito dessas características.

Neste livro, Stephen King consegue transformar uma série de acontecimentos relativamente simples em uma narrativa agoniante, tensa e altamente claustrofóbica. O livro se torna ainda mais interessante ao trazer de forma despretensiosa discussões sobre temas que ainda hoje são considerados tabu em nossa sociedade, como abuso sexual, pedofilia, incesto, necrofilia, machismo, o papel da mulher na arena social, entre outros assuntos espinhosos.

 

Do que trata a história

Jessie e Gerald Burlingame estão casados há mais de uma década. O casamento esfriou, os defeitos mútuos começaram a aparecer e o verniz do casal perfeito começou a descascar. Como tentativa de trazer de volta a paixão da juventude, Gerald convence Jessie a participar de alguns jogos e fantasias sexuais.

No início, essas fantasias são, de fato, libertadoras e trazem certa satisfação aos dois, mas o problema vem logo em seguida: Gerald começa a precisar se esmerar cada vez mais na fantasia para conseguir se excitar, e às vezes, nem mesmo os comprimidos mágicos conseguem dar conta do recado (se é que vocês me entendem). Jessie começa a ficar preocupada e desconcertada com a situação que começa a sair do controle.

Certo dia, Gerald a convida para uma viagem à casa de veraneio que eles compraram juntos, localizada perto de um lago, cercada por árvores, e relativamente longe de outras casas. Por ser um dia no meio da semana não há qualquer movimentação de outras pessoas em férias e até mesmo os caseiros das outras propriedades não são vistos.

Esse isolamento completo é uma das presenças mais significativas na narrativa, e saber que ninguém ouviria mesmo se ela gritasse muito alto, faz com que Jessie se sinta perturbada ainda mais pela situação. Ao chegar a casa, Gerald mostra para a esposa um par de algemas de verdade que conseguiu comprar com um policial.

A partir do momento em que Jessie, vestida em uma camisola sexy, leve e nada prática, é presa à cabeceira da cama, é que a coisa desanda. Atada pelos pulsos ela assiste à morte do marido por um enfarte súbito, e as únicas companhias que ela terá por muito tempo são seus pensamentos perturbados, um cachorro perdido que se aproxima atraído pelo cheiro da morte e, uma criatura escondida nas sombras que pode ou não pode ser um produto de sua imaginação.

geralds-game-movie

 

Opinações pessoais sobre Jogo Perigoso

Como eu já disse anteriormente, Stephen King está no meu TOP 5 de escritores favoritos (e ele não é o quinto… rárá!), ele é aquele tipo de escritor que consegue dominar com maestria a arte de contar histórias e provocar sentimentos e sensações inesperadas no leitor. Tem muita gente (muita mesmo!) que acha que ele é prolixo demais, que ele se alonga sem necessidade, que ele dá muitas voltas ao redor da carniça… mas, para mim… esse é O ponto positivo entre os positivos!

Quando a coisa começa a pegar de fato, você já está íntima dos personagens, já os conhece, além de parecer que eles vieram jantar na sua casa todos os dias durante um ano, e isso é um fator importantíssimo na hora de criar empatia no público. Stephen King não tem pressa alguma em alcançar a linha de chegada e isso é o que o faz um mestre do encantamento. Jogo Perigoso me deixou sem fôlego, e existem cenas realmente tenebrosas que são descritas com uma habilidade tal que parece que estamos dentro do quarto com a Jessie.

Este livro questiona também acerca da natureza de nossos medos, o que separa a sanidade da loucura, e o que é preciso para que nosso cérebro dê o salto final. Jessie fica sozinha em uma casa isolada, seminua e atada em uma cama e, portanto, em uma posição extremamente vulnerável, com o corpo do marido caído ao lado, e, ela sabe… quando entraram na casa, não se preocuparam em fechar a porta da frente…

Jogo Perigoso é um livro que provoca nossos medos psicológicos, que faz com que nos questionemos acerca do que nossa mente é capaz de fazer quando sob pressão, além de fazer com que pensemos sobre assuntos como casamento, a vida a dois, o amor, o abuso psicológico e físico.

A Netflix adaptou recentemente este livro em um filme que fez jus à história. Vale muito a pena assistir, e a atuação da Carla Gugino como Jessie é impecável.

maxresdefault

 

Conexões com outros livros de Stephen King

Como vocês sabem, mestre King é o senhor supremo dos easter eggs. Quase todos os seus livros são interconectados, seja por se passarem nas mesmas cidades, ou por citarem personagens em comum, ou então por participarem diretamente do universo maior desenvolvido, sobretudo, na saga de Roland de Gilead em A Torre Negra.

Jogo Perigoso inicialmente deveria fazer parte de um livro que conectava duas histórias por meio de um eclipse, o título inclusive já estava escolhido: “In the path of the eclipse”. No entanto, a coisa tomou vida própria e se separou de sua companheira que, por sua vez, veio a se chamar Eclipse Total (Dolores Clairborne no original).

Outro personagem de Jogo Perigoso que aparece em uma outra história, é o policial Norris Ridgewick, que aparece em Trocas Macabras. Ambas as histórias se passam em Castle Rock, cidade fictícia do universo de SK.

 

Ficha:

Título original: Gerald’s Game

Ano de lançamento: 1992

Ano da minha edição: 2013

Título traduzido PT/BR: Jogo Perigoso

Tradução: Lia Wyler

Editora: Suma de Letras

Páginas: 335

 

Se você já leu Jogo Perigoso ou assistiu ao filme da Netflix deixe um comentário me contando suas impressões. Vamos trocar figurinhas literárias!

Sobre o Nerdoscópio

Sobre

SOBRE AQUELA QUE VOS FALA

Meu nome é Cinthia Torres. Sou uma paranaense pé-vermelho, que puxa nos erres e que acha que é a única nesse Brasilzão brasileiro que não tem sotaque. Sou graduada em História, tenho especialização em Literatura Brasileira, mestrado em Estudos Literários e, como se a vida já não fosse suficientemente difícil, estou pelejando no doutorado também na área da literatura. Há alguns anos escrevi um livro e vocês podem encontra-lo aqui com o título de O CLUBE DO SÁBADO.

Mockup O Clube do Sábado - fechado laranja

Minha vida inteira é construída por meio da relação “Cinthia <-> Livros”. Os primeiros presentes que ganhei dos meus pais foram livros, me dou livros de presente de aniversário, páscoa, natal, dia da bandeira… e pretendo ganhar livros até o fim dessa minha vidinha. Dou risada na cara de quem me solta a fatídica “pra quê mais livros se você ainda nem leu os que tem?”, afinal, não sou obrigada a ficar aguentando esses desrespeitos (#risos). Não empresto, afinal, é sapiente o indivíduo que aprende com seus erros passados.

LOGO

SOBRE O NERDOSCÓPIO

Meus interesses para esse blog são: livros, escrita, filmes, séries, listas, TAG’s. sempre tive interesse em desenvolver um projeto como esse, e sempre quis fazer vídeos sobre livros para o Youtube, mas… eu esqueço até meu nome quando estou em frente à câmera, portanto, a palavra escrita/digitada é aquela que nunca deixa o tímido na mão.

O título do blog veio da junção extremamente poética e engenhosa (tem um certo escritor brasileiro, um alguma-coisa-Rosa que está se revirando no caixão, de inveja de minhas habilidades com a criação de palavras) de NERD + CALEIDOSCÓPIO. Gosto das duas palavras, gosto das duas ideias, que assim seja!

A ideia aqui é falar sobre livros e outros assuntos relacionados sem nenhuma pretensão acadêmica, ainda que eu possa tentar me aprofundar em um ou outro tema nesse sentido. O Nerdoscópio é um espaço de troca, de alegria, de leveza… problematizações respeitosas são bem vindas, chatice e ranhetice não.

 

Bem vindos! Bem vindos!